segunda-feira, 20 de abril de 2009

25 de Abril "Revolução dos Cravos"



Portugal acordou para uma revolução, às 07:30 de 25 de Abril de 1974, com a leitura de um comunicado do Movimento das Forças Armadas, apanhando desprevenida a imprensa estrangeira que tinha, em Lisboa, poucos representantes.
O país que durante o Estado Novo se isolara do resto do mundo suscitava pouco interesse da imprensa estrangeira, excepção feita para a fracassada intentona de 16 de Março de 1974, que logo caiu no esquecimento.
"O mundo sabia muito pouco de Portugal", recorda Martha de la Cal, que partiu dos Estados Unidos aos 19 anos e chegou a Portugal em 1967 para fazer turismo, tendo pelo caminho abraçado "por acidente" o jornalismo.
Mas quando a 25 de Abril de 1974 soube, pela televisão, de um golpe de Estado, passou a ser fonte de informação para o resto do mundo, juntamente com o marido, Peter Collins, que fotografa os acontecimentos.
Escreveu textos que fizeram primeiras páginas e capas de publicações, como a da revista Time que, com uma fotografia do general António Spínola, titulou: "Golpe de Estado em Portugal".
"Havia sempre a ideia de que tinha sido Spínola a organizar o 25 de Abril, devido ao livro que escrevera", diz, referindo-se a "Portugal e o Futuro", onde o general expressou a ideia de que a solução para o problema colonial português passava por outras vias que não a continuação da guerra.
A uma distância de 35 anos, numa mescla de espanhol, inglês e português, Martha disse à Lusa, em tom jocoso, que os elementos da PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) se distinguiam "pelos seus trajes baratos e escuros e pelos sapatos pretos pontiagudos".
No dia 25 de Abril, já com um aparato de metralhadoras nas ruas, e perante a chegada de mais um tanque, Martha aproximou-se de um grupo de soldados e perguntou: +o que estão a fazer?+".
"Queriam eleições, queriam acabar com a guerra em África (...) e fiquei a saber de tudo isto no meio da rua", disse, confessando ter vivido esses momentos com forte entusiasmo.
Assim que conseguiram entrar no país - porque as fronteiras estiveram fechadas três ou quatro dias - vieram "muitíssimos" jornalistas estrangeiros, referiu Martha, que se encontrava na estação de Correios dos Restauradores a enviar as suas peças para a Times e outras publicações, quando no Largo do Carmo - onde era aguardada a rendição do Presidente do Conselho, Marcello Caetano -, o capitão Salgueiro Maia deu ordem para que uma chaimite abrisse fogo sobre a frontaria do quartel.
Martha destaca como importante a libertação dos presos políticos, que se encontravam no forte de Caxias, e a luta para saírem em conjunto da prisão.
A jornalista, que privou com o histórico dirigente comunista Álvaro Cunhal e que se refere aos "camaradas" como "great guys" (óptimas pessoas"), considera normal que não tenha havido derramamento de sangue na "Revolução de 25".
"Os comunistas não eram nenhuns criminosos, por isso não podia haver derramamento de sangue", disse, recordando o dia em que Cunhal - recebido por uma multidão no aeroporto de Lisboa, a 30 de Abril de 1974 - lhe confidenciara que se "Jesus Cristo fosse vivo ter-lhe-iam chamado comunista".
Afinal - disse Martha, citando uma alusão de Cunhal a uma das oito bem-aventuranças enunciadas por Jesus Cristo no Sermão da Montanha - "Ele disse : Felizes os pobres porque possuirão a terra".
Martha estava também em Santa Apolónia quando, a 28 de Abril de 1974, uma multidão recebeu na capital o dirigente socialista Mário Soares, acompanhado da mulher, Maria Barroso, e de alguns amigos também no exílio.
Desde então, Martha, que mantém uma relação de amizade com o dirigente socialista e a sua família, admite que a situação no país actualmente "é bastante má", mas sublinha: "Ninguém tem a culpa. A crise económica é global".
A jornalista destaca como muito fulcral, resultante da "Revolução dos Cravos", as relações entre Portugal e os países de língua portuguesa, que considera um "exemplo" para o resto do mundo.


LUSA

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